Sinais dos tempos

Hoje passeava pela rua quando me deparei com duas senhoras, cabelos grisalhos impecavelmente arranjados e com um ar de avós desempoeiradas que seguiam à minha frente. Falavam animadamente , numa conversa que não escutava mas que, ao pararmos no mesmo semáforo, se tornou mais clara.

– … eu digo-lhe sempre "tata, não mexe. A avó está a dizer para não mexer. Tata não mexe."

(Percebi que estavam a falar das netas e sorri sozinha)

-"tata, põe no lugar. A avó está a pedir para por no lugar.", continuava uma delas enquanto a outra escutava atenta.

-" E insisto sempre para ela ser educada. Por isso, qq m*rd* que ela apanhe volta logo a pôr no sítio", finalizou.

Ouvido isto, confesso q fiquei atónita. Poderão ser sinais dos tempos mas não sei se estou preparada para esta modernidade em formato de avó😜

(Imagem Poshseven.com)

Nunca fui daquelas pessoas que gosta de bater palmas. Confesso. 

Sempre fui um bocadinho Grinch quando assistia a um espectáculo ou concerto e ouvia bater palmas em cada momento.  Não que não ache que os artistas merecem reconhecimento. Muito pelo contrário. Mas sempre acreditei que é o facto de as usarmos com parcimónia e momentos estratégicos que aumentava o seu valor.  Isso resultava em que, invariavelmente, cada x que se davam aquelas manifestações de grupo em que pedem que todos acompanhem com coreografias ritmadas ao som das palmas eu optasse por ficar de fora.  Como uma espécie de forreta das palmas. A economizar para um momento mais merecedor.

Isto até ser mãe. Se examinar atentamente estes últimos 13 meses, acho que posso afirmar com quase toda a certeza que devo ter batido mais palmas neste período de que nos restantes 37 anos da minha vida.

Ser mãe fez com que abandonasse essa capacidade de avaliação e que abraçasse as palmas com todo o meu ser. Ele são palmas porque come a sopa. Porque se pôs de pé. Porque gatinha. Porque anda sozinho. Porque conseguiu encaixar a figura geométrica no local correto. Porque cantamos uma canção juntos. Porque está a dançar.  Pq levou a colher à boca. Porque devolveu a bola à Bala. Porque o pai chegou.  Porque nos imitou.  Porque sorri quando as ouve.

A verdade é que, mais do que as palmas que agora bato ( e que sei que continuarei a bater até ao dia em que estiver a assistir à cerimónia de formatura ou a um discurso em âmbito profissional) o que a maternidade me trouxe foi uma capacidade de voltar a apreciar as pequenas conquistas diárias. A celebrar a vida. Nos grandes e pequenos momentos.  E a ter a capacidade de lhe agradecer com uma grande salva de palmas 🙂

Stop the game

Hoje, no meu passeio diário com o Rico Filho e a “maivelha”, seguia tranquila da vida quando passo por duas mães que empurravam os seus carrinhos. Uma delas comentou, embevecida, o facto de ir com um bebé e um cão pela trela, tão bem comportados. Falavam entre elas e não comigo. A outra ( não sei se lhe teria corrido mal o dia mas pelo comentário que se segue quero acreditar que sim), fez um esgar azedo e exclamou: pois, se eu fosse uma dessas mães dondocas que não faz nada também ia assim fresca e fofa.

Segui o meu caminho como se não fosse nada comigo mas, na verdade, o que deveria ter dito a essa senhora é que não podia estar mais enganada. Dizer-lhe que trabalho e que acordo às 6 e meia da manhã para sair de casa às 7 e meia, com o Rico Filho orientado, e enfrentar a A5 para estar no escritório às 8. Que a maior parte das xs o faço dps de noites mal dormidas, com direito a despertares noturnos para biberon a horas impróprias, nas quais eu e o Rico Pai no revezamos para fazer aquilo que costumo chamar The Walking Dead. Que raramente consigo ter tempo para secar o cabelo e hoje por acaso foi um daqueles dias de luxo em que até o estiquei. Que o meu trabalho exige responsabilidade e dedicação e muito jogo de cintura e ginástica para que todos os 2 Dos  e imponderáveis caibam na agenda. Que hoje estive em 4 reuniões diferentes, a somar a tudo o resto e que uma x mais tive que usar de toda a diplomacia para conseguir sair às 5, para voltar a enfrentar o trânsito, ainda fazer umas compras e estar em casa à hora de saída da minha empregada, que tb tem direito à vida e ter os seus horários respeitados (talvez seja nessa parte que sou dondoca pq optei por ter o meu filho em casa ao invés da creche, apesar do investimento financeiro q isso representa) . Que quando chego a casa, só tenho tempo de descalçar os sapatos e pôr uns ténis pq há um cão que tem q ir à rua antes do ritual dos banhos, jantares e odisseia diária de adormecer um bebé que teima em não desligar. Foi precisamente nesse momento que esta senhora me encontrou. Naquela hora diária pela qual corro todo o dia de modo a poder levar o meu filho e cão a brincarem no parque e passar algum tempo com eles q n seja apenas realizar tarefas que as rotinas quotidianas nos impõem.

Mas o que também deveria ter dito é que, embora não sendo o meu caso, as mães que ficam em casa não têm a vida facilitada e que ser mãe a tempo inteiro dá (muito) trabalho.

Devia ter dito tudo isto mas não disse. Pq o que consegui pensar e sentir naquele momento foi incompreensão perante esta necessidade à qual assistimos diariamente de julgar os outros. Uma necessidade que nos casos das mães toma proporções exacerbadas, com muitos adeptos do mom shaming , como vimos nos mais recentes casos da Carolina Deslandes ou Carolina patrocínio ( será por terem nomes começados por C?:p). O que sugiro é q todas nos concentremos mais em nós e em criar os nossos momentos felizes e fazer o q melhor sabemos.  Com certos e errados. Dias bons e piores. Mas sem censuras e apontares de dedo, que a vida já é cruel e faz isso tantas xs, sem precisar de ajuda de puristas de pacotilha.

Stop the game. Play your own.

Ao Rico Pai:

Quando perguntei ao Rico Pai se já tinha lido o blog, e visto que voltara a escrever  (com muitos hiatos, eu sei, perdoem-me) fez um comentário que me deixou a pensar. Disse que nunca falava dele.

Fiquei a pensar porque está sempre presente nos meus/ nos nossos dias. Seja de manhã quando dá o primeiro biberon quando o V. acorda e o sol ainda desponta, tímido lá fora ou quando eu saio para o trabalho e ele tem todo o tempo do mundo (mesmo não o tendo) para ir dar uma volta com a “maivelha” , que abana, impaciente a cauda, mal o primeiro de nós dá sinal de abrir os olhos.  Seja à noite, quando transforma a hora do banho num momento de gargalhadas e a nossa banheira numa piscina olímpica onde há espaço para todas as brincadeiras. 

Está presente quando estou cansada e o V. teima em manter os olhos abertos, desafiando a hora de deitar e os limites da minha paciência e lhe passo o testemunho , que aceita sem reclamar. 

Está presente quando enfrenta um dia repleto de reuniões e trânsito mas nos apanha no passeio diário a tempo de uma imperial acompanhada de bolachas para o V. no café em frente da nossa casa.

Está sempre lá quando, invariavelmente, aos domingos de manhã, vai com o Rico Filho à natação, num momento só dos dois, e regressa para me relatar as aventuras.

Quando tenho um jantar com amigas e move mundos e fundos para poder ser ele quem fica de serviço nessa noite.

Quando me pergunta como foi o meu dia e ouve com toda a paciência do mundo.

Quando o leva ao colo e lhe dá a mão para que possa testar a ainda insegurança dos seus primeiros passos.

Quando o veste, mesmo que nada esteja a condizer.

Quando me dá a mão a mim smp q preciso ou só pq sim.

Quando sorri, orgulhoso, dos quatro que somos.

Quando remete o surf para as 6 da manhã para poder regressar a tempo de estarmos juntos.

Quando não reclama por ver a nossa série favorita, mm q esteja tão cansado que adormeça smp no sofá.

Quando lhe descasca a fruta. E às xs tb a mim porque sabe que adoro, mm q ache uma mariquice.

Quando brincam de uma forma que é só deles.

Quando é o primeiro a voluntariar-se para lhe montar a cama ou o brinquedo mais complicado. 

Quando regressa do trabalho com os iogurtes-que-só-podem-ser-aqueles-e-nao-há-em-quase-nenhuns-supermercados.

Quando me trouxe um cornetto de morango logo a seguir ao parto pq sabia q era por aquilo que eu suspirava.

Quando lhe deu banho pela primeira x pq eu achava q era de louça.

Quando olho para ele e vejo refletido um amor que não tem medida.

A verdade é que concluí que não falo sempre dele pq ele faz parte de todas as histórias e não precisa de menções honrosas pq ele é um enredo. Ele é. Pai. Marido. O meu melhor amigo. 

Não sei daqui a quanto tempo irá ler isto mas quando o fizer quero que saiba que é O Rico Pai. E q sorte temos nós que faça das nossas tão ricas vidas…

06/06/2016

Há exatamente um ano atrás, com 38 semanas, achei uma ótima ideia ir manter o meu ritual anual da visita à feira do livro. 

Não estava este tempinho funham que temos hoje.  Na verdade, fazia um calor abrasador mas eu, no esplendor redondo da minha quase gravidez de termo, pensei que à noitinha não fazia mal e liguei à amiga mais viciada em livros que tenho- sim, SL, estou a falar de ti:)- , convenci o Rico Pai a ir lá ter e levar a “maivelha” – a nossa labrador que é como uma pequena sombra que vai connosco para todo o lado- e pus pés (inchados) a caminho que havia muitos livros para comprar.

Comemos gelados, percorri os corredores de cima abaixo e comprei tudo o que havia para comprar de livros para pais e bebés. 

Cheguei a casa cansada mas com sentimento de dever cumprido.  Já tinha leitura para os momentos mortos dos primeiros dias da maternidade (que, mal sabia eu, não iam ser nenhuns. Santa ingenuidade).  Antes de me deitar, postei uma foto dos livros e achei que tinha que tirar uma foto à minha barriga (coisa a que vos vou poupar) para guardar para a posteridade.  Afinal, estava de 38 semanas com baixo líquido amniótico e visita marcada à obstetra para daí a 3 dias, com grande probabilidade de já não voltar para casa.  

No fundo, eu não sabia que já sabia o que ia acontecer daí a umas horas. Rebentam as águas e ala para o hospital que o Rico Filho estava pronto para conhecer o mundo.  E não me deixar ler todos aqueles livros que comprara;)

Quase um ano de manjerico

Cá em casa temos um caso sério de namoro com as Festas de Lisboa. Somos uma família em que os gémeos estão em maioria, com os Santos Populares a abençoarem avó paterna, tio, Rica Mãe e Rico Filho.

Por isso mesmo, no ano passado, naquele que eu ainda não sabia (mas pressentia) ser o último fim-de-semana em modo “cassete” (que é como quem diz com o Rico Filho ainda na barriga) , além de ter feito e refeito toda a mala da maternidade, achei que não podia ter falta no meu arraial favorito e na festa de uma das minhas geminianas do coração, a minha amiga MB. 

Enfiei os meus pés gigantes nos ténis mais confortáveis q tinha, fiz uma reza rápida ao Santo António para o miúdo não nascer no meio das sardinhas , e pus pés a caminho para “dançar a noite inteira/num feriado português”. Foi o primeiro e único arraial daquele ano, mas cada acorde valeu a pena. 

Ontem regressei para matar saudades e hoje o Rico Filho vai estrear-se na Vila Berta.  Esta é a nossa tradição.  Há quem tenha outras mas nenhuma sabe tão bem como os Santos Populares.  Que venha Junho que estamos prontos 😉

Viagem à roda do teu nome 

Há alguns dias fizemos o curso de preparação para o batizado do Rico Filho (hj em dia, ao que parece, há uma necessidade extrema de nos documentarmos e prepararmos para tudo). Questões de fé à parte, antes de terminar, fizeram-nos uma pergunta que nos obrigou a reflectir: pensem no nome que escolheram para os vossos filhos e que projeto de vida desejaram para eles.

Houve pais a desfilarem as origens históricas e bíblicas das suas escolhas.  Eu, timidamente, disse apenas que não tínhamos escolhido o nome em particular pelo significado da palavra em si mas sim pelo que ele significava para nós. 

A verdade é que Vasco não tem uma origem etimologicamente relevante.  Qualquer pesquisa rápida releva que é “originário do país Vasco”, o que não é, propriamente, uma grande motivação para assim batizarmos o nosso filho. No entanto, para mim Vasco sempre foi um nome que associei a personalidades fortes, a pessoas com carácter marcado e apetite pela vida. 

Há uma expressão castelhana que o resume na perfeição: ” tener ángel“. O que se traduz por ser uma pessoa com aquele “brilhozinho” especial, que os franceses tão bem apelidam de “je ne sais quoi”. No fundo, ao chamar-te assim o que te desejamos, qual fada madrinha da Bela Adormecida (a boa, claro, que para madrasta já basta a vida), é que tenhas esse encanto próprio que te há-de permitir VIVER, com vontade e intensidade e sempre com um “brilhozinho nos olhos”. 
E tudo isso se assina(rá) com uma só palavra e tudo o que nela caberá: Vasco.  

Preenchee-a bem.

A nossa casa é onde está o nosso coração. E a nossa família também.

Há nove anos atrás entrei por uma porta que me marcou profundamente.  Era a porta de uma casa situada perto do Hospital da Estefânia e que dava pelo nome de Casa Ronald McDonald.

 Fui conhecê-la em trabalho, no dia da sua inauguração. Era (e é) uma casa ampla, cheia de sol e com quartos repletos de cor. Uma casa pensada com todo o cuidado e detalhes. Em que o carinho estava presente em cada parede. Uma casa onde nos sentíamos bem-vindos. Essa Casa, assim com C, foi a primeira de duas criadas pela  Fundação Infantil Ronald McDonald (FIRM) para acolherem, gratuitamente,  os familiares de crianças que se encontram em tratamento hospitalar. 

Estando eu, na altura, a trabalhar na agência de comunicação que assessora a McDonald’s e a FIRM, pude acompanhar de perto a forma como se foi enchendo de muitas histórias e famílias e conhecer alguns dos seus ocupantes, que vinham dos mais diversos pontos do país.

 Eram (são) histórias sofridas, como qualquer história em que uma criança se encontra doente. Mas eram, simultaneamente, histórias de coragem, de pais, mães, tios, avós, que procuravam manter o possível da normalidade e estabilidade que só uma família nos pode dar, e que tinham, naquela casa, um porto de abrigo onde podiam continuar a ser quem eram antes da sua vida ter sido abalada.  Fazer um jantar em família, cozinhar o prato favorito, jogar um jogo de tabuleiro, fazer uma trança no cabelo ou, simplesmente, ver um pouco de televisão abraçados no sofá. 

Visitei muitas vezes esta Casa e conheci muitas das vidas que por lá passaram mas há uma de quem nunca, nunca me esqueço. O Nelson era um menino um pouco mais crescido que, infelizmente, teve q aí passar mais dias do que seria justo para qualquer criança. Ficámos amigos desde a minha primeira visita e, sempre que lá ia, conversámos sobre coisas tão banais como jogos de computador, o que me levou a oferecer a minha tão amada playstation à Casa Ronald McDonald para que pudéssemos jogar Guitar Hero quando lá ia ou para que fizesse competições de singstar com os outros meninos que lá se encontravam com as suas famílias. Celebrei cada melhoria do Nelson e sofri com as notícias menos boas. Até um dia chegar aquela que menos queria ouvir.  

Desde esse dia, a Fundação Infantil Ronald McDonald e as suas Casas passaram a ter um lugar ainda maior no meu coração e, longe de serem parte do meu trabalho, são uma causa que merece todo o meu apoio. Porque as  Casas Ronald McDonald  ( hoje existem duas, uma em Lisboa e outra no Porto, junto ao hospital de São João)  sao verdadeiras “casas longe de casa” e aproximam, de facto, famílias, na altura em que estas mais precisam: quando as suas crianças adoecem. São um espaço onde podem ficar, sem os custos que uma estadia num hotel ou pensão poderiam implicar, e fazer a sua vida, tanto quanto possível, como em casa, tendo, nestes nove anos, já acolhido mais de 1600 famílias de todos os pontos do país. 

E, porque hoje se celebra o Dia Internacional da Família, gostaria de partilhar convosco a campanha que desenvolvemos para dar a conhecer este trabalho meritório. 

Tendo como personagens centrais a Maria e o Pedro, e sob o mote Casa é onde está o nosso coração, conta-nos uma história que espelha o dia-a-dia das muitas famílias apoiadas pelas Casas Ronald McDonald.  

A Maria e o Pedro são duas das personagens da colecção solidária, desenvolvida por artesãs portuguesas, que podem ser adquiridas AQUI para ajudar a Fundação a apoiar muitas mais famílias e fazer uma criança feliz nas vossas 🙂 

Porque a família é o nosso bem mais precioso, conheçam e partilhem este projecto, para que muitas mais crianças possam continuar a ter a sua por perto.

Feliz dia da família para todos. E que a vossa esteja sempre ao v/lado em todos os momentos, que desejo q sejam sempre bons.

PS: Nelson, esta é por ti. Moras sempre nesta casa que é o meu coração.

#anossacasaéondeestáonossocoração

Quanto vale uma sesta?

Uma sesta é um cabelo que se seca. Umas páginas que se lêm. Mais um episódio da nossa série favorita. Um telefonema que se põe em dia. Ou dois, ou três. Uma casa que se arruma. Tempo para afagar o nosso cão. Pesquisar novas receitas para que coma coisas diferentes. Preguiçar no sofá. Fechar os olhos para pôr o nosso sono em dia. Olhar pela janela com tempo para divagar. Fazer compras online para guardar tempo para outras coisas mais relevantes. Um beijo prolongado ao nosso marido. Poder organizar o armário. Pôr creme em todos os cantinho esquecidos do nosso corpo ou fazer uma máscara de argila. Ou, simplesmente, nada fazer. Uma sesta é isso mesmo: tempo para nós. Aproveitem-no:)